Neste início de ano, a nova variante brasileira do coronavírus afetou diretamente as exportações de frutas perecíveis, que são feitas por avião. Com mais restrições para voos saídos do Brasil, os embarques de mamão, por exemplo, uma das frutas que o país mais exporta, caíram 10% em janeiro tanto em volume quanto em receita, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pela Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas). Também houve forte impacto sobre o limão, outra importante nas vendas ao exterior. Tanto receita quanto volume das vendas da fruta caíram 25% no mês.

Em janeiro, a descoberta no Amazonas da cepa brasileira do coronavírus levou vários países a interromperem sua ligação aérea com o Brasil. No dia 14 de janeiro, o Reino Unido decidiu que todos os voos comerciais brasileiros estariam proibidos a partir do dia seguinte. Países como Portugal, Estados Unidos e Colômbia também optaram por fechar a ponte com o Brasil na tentativa de travar a entrada da variante brasileira. “Não pudemos utilizar o porão dos aviões comerciais, e agora temos apenas alguns aviões cargueiros”, disse Jorge de Souza, gerente técnico e de projetos da Abrafrutas.

Ulisses Brambini, diretor proprietário e produtor da Bello-fruit, conta que a dificuldade em encontrar aviões para levar as frutas ao exterior vem desde 2020, mas, segundo ele, a situação agravou-se em janeiro. A empresa, que exportava cerca de 500 toneladas de mamão ao mês em 2019, embarcou apenas 60 toneladas no mês passado.

“Com as restrições de vários países a voos saídos do Brasil, o jeito foi destinar a produção ao mercado interno, mas a um preço muito inferior”, disse. Em quatro ocasiões distintas, relata Brambini, o mamão da produção da Bello-fruit, localizada na divisa do Espírito Santo com a Bahia, viajou até o aeroporto Galeão, no Rio de Janeiro, mas não pôde embarcar em razão da falta de aviões cargueiros.

A preocupação das autoridades que fecharam a ligação aérea com o Brasil está na circulação de pessoas, e não na carga transportada. Isso explica por que frutas como morango, mamão, pitaia, pinha, atemoia e goiaba tiveram os embarques prejudicados – essas variedades são exportadas principalmente por aviões comerciais. Os países europeus e os EUA respondem, juntos, por cerca de 90% das importações de frutas brasileiras.

O imbróglio teve reflexos no bolso de exportadores e produtores. O custo para enviar a fruta por aeronaves comerciais fica em torno de US$ 1 o quilo. Recentemente, o aumento da demanda por aviões cargueiros elevou o custo desse modal de US$ 1,4 o quilo da fruta, em média, para valores entre US$ 1,8 e US$ 2,3 o quilo. “A depender da modalidade dos negócios, o custo para o envio pode ser pago pelo produtor, mas, em última instância, quem sente mais é o consumidor final”, explica Jorge de Souza, da Abrafrutas.

Quando consideradas todas as frutas, os embarques em janeiro somaram 82 mil toneladas, volume 5% menor que o de janeiro de 2020. Em receita, o recuo foi de 3%, para US$ 60 milhões.

Mesmo com os contratempos do mês passado, os fruticultores mantêm o otimismo para os embarques no restante de 2021. No caso da laranja, por exemplo, as exportações cresceram expressivos 1838% em janeiro, para 611 toneladas. Em receita, o salto foi de 476%, para US$ 145 mil.

Com o aumento da procura por produtos à base de vitamina-C, os embarques da laranja começaram a voltar à normalidade neste ano. Em 2020, a presença da pinta preta (black spot, em inglês) nos pomares travou boa parte das vendas brasileiras ao exterior, principalmente aos países europeus. Com um melhor controle das pragas no campo, as exportações da fruta devem crescer em 2021.

Data: 25/02/2021
Fonte: Valor Econômico

Fonte: A Granja