O que fazer para promover a adequada interação entre a planta de soja com o solo que lhe dá suporte e as condições atmosféricas que a circundam para se atingir altos rendimentos

Derly José Henriques da Silva e Felipe Lopes da Silva, do Departamento de Agronomia da Universidade Federal de Viçosa/MG; e Rodrigo de Oliveira Lima, da SNP Consultoria

A soja, Glycine max (L.) Merrill, leguminosa da família Fabacea cujo centro de diversidade é a China, tornou-se a principal commodity da balança comercial brasileira do agro, com exportação de US$ 25,7 bilhões em grãos e US$ 3,9 bilhões em farelo, sendo plantada e produzida com destaque nos estados de Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Maranhão, Tocantins, Piauí, Santa Catarina e Pará. Em razão de ser a commodity plantada no maior número de estados e em todas as regiões brasileiras, a soja poderia receber o título de commodity da unidade nacional.

O objetivo deste artigo é analisar, ainda que parcialmente, as relações existentes entre solo-planta-atmosfera com foco na cultura, visando a produtividades maiores e mais sustentáveis. Sempre foi dito que solo ideal é solo profundo, bem drenado, rico em O2, rico em micro e macroporos, e com boa biodisponibilidade de água para as plantas. Para melhor utilizar esse recurso, deve-se construir o perfil físico-químico do mesmo.

O começo da construção do perfil é correção da acidez, associando calcário e gesso, visando adequar o pH próximo a 6, o que favorece o aumento da disponibilidade de P, N, S, B, K, Ca, Mg, Fe, Cu, Mn e Zn, além de reduzir a concentração de alumínio e manganês tóxicos. A associação de calcário (CaCO3) e gesso agrícola (CaSO4.2H2O) visa corrigir o solo superficial e em profundidade.

Outro importante fator na construção do perfil do solo é a capacidade de troca catiônica (CTC). A argila e a matéria orgânica possuem cargas superficiais negativas, as quais se ligam a nutrientes com cargas positivas, tais como Ca++, Mg++, K+, entre outros. A planta produz íons H+, que são liberados pela raiz durante o processo metabólico. O H+ se liga às partículas de argila e matéria orgânica do solo, liberando íons como K+, Ca++ e Mg++, que podem ser absorvidos pelas raízes. Assim, quanto maior for a CTC do solo, maior será a sua capacidade de estocar nutrientes que ficarão plenamente disponíveis para a planta.

Associado à calagem e à gessagem, o uso mais intenso de plantas de cobertura – como gramíneas (braquiárias como a Urocloa, milheto, panicuns, entre outras) ou leguminosas (crotalárias, estilosantes etc.) – e crucíferas (nabo, crambe etc.) pode contribuir com o perfil do solo, pois essas plantas possuem sistema radicular vigoroso, o que ajuda a romper camadas adensadas do solo, além de prover com os resíduos das raízes canalículos propícios ao desenvolvimento das raízes da soja.

Água no solo

A biodisponibilidade de água no solo para a soja é um dos fatores mais importantes, pois o estresse hídrico causa grandes perdas à cultura (Wijewardaan et al., 2018). No solo, a quantidade de água varia em função da textura, da porosidade, do teor de argila, da matéria orgânica e das camadas compactadas. Alguns fatores externos ao solo também influenciam a disponibilidade de água, como precipitação pluvial, radiação solar, temperatura, evapotranspiração da cultura, índice de área foliar, densidade de plantas e sistema de manejo do solo (Martorano et al., 2009).

A água no solo está exposta à força gravitacional (potencial gravitacional), que tende a puxá-la para camadas mais profundas deste (Marenco et al., 2013). Assim, é muito importante ter plantas cultivadas em solos sem impedimento físico-químico, para que o sistema radicular possa atingir camadas com maior disponibilidade de água.

Com relação à soja, o ideal é que o sistema radicular atinja as camadas profundas do solo, aquelas com até 100% da capacidade de campo, nos estádios Vn-1, Vn ou R1. Pois é neste momento que se inicia o desenvolvimento dos futuros botões florais, os quais serão decisivos na determinação da próxima safra (Faria et al., 2007). E é nessa fase que a planta inicia a maior demanda de água para o seu pleno desenvolvimento, que culmina em R5 com o enchimento dos grãos.

O solo é também um isolante térmico. Dessa forma, águas de camadas profundas têm temperatura inferior à da água superficial e, portanto, são mais eficientes na regulação térmica do vegetal. Raízes profundas permitem à planta absorver água com temperatura menor que a do ar que a circunda e, com isso, possibilitam que a planta reduza o gasto de água, o consumo de luxo e a translocação de ácido abscísico (ABA) (Davies et al., 1990) das raízes, permitindo, assim, que os estômatos fiquem abertos por mais tempo ao longo do dia, o que promove maior eficiência fotossintética e, possivelmente, maior eficiência de produção com sustentabilidade. Assim, a construção do perfil físico-químico do solo deve ser orientada pela disponibilidade de água no solo, para garantir a produtividade da soja.

Condições atmosféricas

Os principais fatores da atmosfera são os seguintes: concentração de CO2, luz em intensidade e duração, temperatura, umidade relativa, déficit de pressão de vapor e ventos. A concentração de CO2 atmosférico é, atualmente, 415 miligramas por litro (mg/L), e é considerada uniforme ao longo do globo. Portanto esse fator não será considerado aqui.

Entre os demais fatores atmosféricos, tudo começa com a luz solar, primeiramente por ser esta a fonte de energia para a fotossíntese. Além disso, a luz é geradora da temperatura atmosférica, que influencia diretamente a umidade relativa (UR) do seguinte modo: quanto maior a temperatura, maior a quantidade de água na forma de vapor que a atmosfera pode reter. Portanto, à medida que a temperatura vai aumentando ao longo do dia, se não houver reposição de vapor de água na atmosfera, a umidade relativa vai reduzindo.

Quando a umidade relativa fica menor que 100%, começa a atuação do déficit de pressão de saturação de vapor d’água no ar (DPV). O DPV pode ser entendido como a força com que a atmosfera retira água de uma superfície, visando suprir sua carência de vapor de água. Basicamente, essa é a grande força que movimenta a evaporação do solo e dos corpos d’água, bem como a evapotranspiração.

O controle transpiratório da planta é feito pelos estômatos e tem consequência direta na eficiência fotossintética, pois, com os estômatos abertos, há saída de vapor de água e O2, e entrada de CO2 para a fotossíntese.

A transpiração da planta tem, pelo menos, quatro funções: i) Prover moléculas de água para o funcionamento da fotossíntese; ii) Promover a absorção de água e nutrientes pelo vegetal; iii) Promover a hidratação do corpo vegetal; iv) Promover o controle térmico do vegetal, pois 90% a 95% de toda a água absorvida terá como função reduzir a temperatura da planta ao ser evaporada nas horas mais quentes do dia.

Interação entre solo, planta e atmosfera

No contexto da interação solo-planta- atmosfera, a planta possui características que podem facilitar a sua adaptação, tais como a compacidade, a capacidade de aprofundamento de raízes e a pilosidade (tricomas). Plantas mais compactas permitem maior densidade de semeadura e, consequentemente, maiores produtividades. O item raízes mais profundas foi discutido anteriormente.

Quando o déficit de pressão de vapor está muito negativo, exerce grande pressão transpiratória, e, com isso, a planta é estimulada ao fechamento dos estômatos para evitar perda excessiva de água. Em contrapartida, a soja possui pelos (tricomas) que possibilitam formar camada de ar junto à folha rica em vapor d’água. Esta camada (camada limite) pode permitir que os estômatos fiquem abertos por mais tempo ao longo do dia, e, assim, mantém-se o fluxo de CO2 para o interior da folha e reduz-se o fluxo de vapor de água para a atmosfera.

DICAS IMPORTANTES

O engenheiro-agrônomo pode tomar medidas de cunho prático associando todos esses itens discutidos anteriormente, objetivando a maximização da produtividade sustentável de soja. Assim, as sugestões são as seguintes:

Escolher cultivares consistentemente adaptadas à região;

Preferir cultivares mais compactas e mais pilosas;

Corrigir o solo usando calcário e gesso;

Construir o perfil físico-químico do solo orientado pela disponibilidade de água;

Fazer cultivo com plantas de cobertura;

Fazer pulverizações, preferencialmente, nas últimas horas do dia, pois, nesse horário, a temperatura foliar será menor e o déficit de pressão de vapor, menos negativo, e, com isso, a evaporação será menor;

Fazer a irrigação, preferencialmente, na madrugada, pois, com o solo frio e o ar também frio e mais úmido, o déficit de pressão de vapor normalmente é zero. Assim, a água poderá molhar profundamente o solo;

Manter as matas ciliares e as matas das áreas com inclinação elevada, pois essas áreas transpiram intensamente e, assim, mantêm a umidade relativa mais elevada, reduzindo, portanto, o estresse hídrico;

Fonte: Revista: A Granja