A discussão sobre mudanças na jornada de trabalho e o possível fim da escala 6×1 é legítima na sociedade. Toda iniciativa voltada ao aperfeiçoamento das relações de trabalho deve ser analisada com responsabilidade, equilíbrio e diálogo. No entanto, quando o tema envolve setores essenciais para a economia e para a segurança alimentar do país, é fundamental que as decisões sejam construídas a partir da realidade operacional de cada atividade produtiva.
No agronegócio, as particularidades do campo tornam impossível analisar esse debate sob uma lógica única e uniforme. Diferentemente de atividades urbanas ou de setores cuja produção pode ser interrompida e retomada sem maiores impactos, a agricultura trabalha sob condições biológicas, climáticas e sazonais, que não seguem calendários legislativos nem jornadas previamente determinadas.
Uma lavoura não espera. Uma janela de plantio ou colheita perdida pode representar prejuízos irreversíveis para toda uma safra. Da mesma forma, situações emergenciais envolvendo pragas, doenças, condições climáticas adversas ou manejo de culturas exigem respostas imediatas. Em muitos casos, a produtividade e a viabilidade econômica da atividade dependem justamente da capacidade de agir no momento certo.
Além disso, o próprio agronegócio é composto por diferentes realidades. A dinâmica de uma propriedade produtora de grãos é distinta daquela observada na horticultura, na fruticultura, na produção de cana-de-açúcar ou na pecuária. Existem atividades que possuem forte concentração operacional em determinados períodos do ano e outras que exigem acompanhamento permanente.
Por essa razão, o debate não pode ser conduzido de forma genérica. O risco de uma regulamentação excessivamente rígida é criar obstáculos operacionais para atividades que já enfrentam desafios relacionados à disponibilidade de mão de obra qualificada, aumento de custos de produção e necessidade constante de ganhos de eficiência.
Muitos segmentos produtivos já possuem mecanismos de negociação coletiva e modelos de organização do trabalho adaptados às suas necessidades específicas. Em grande parte dos casos, a própria dinâmica do mercado permitiu construir soluções equilibradas entre empregadores e trabalhadores, respeitando as características de cada atividade.
A preocupação do setor produtivo não está na discussão em si, mas na possibilidade de implantação de mudanças sem a devida avaliação técnica e sem diálogo amplo com os segmentos diretamente impactados. Entidades representativas do agronegócio têm defendido justamente a construção de soluções que considerem as especificidades setoriais, mecanismos de transição adequados, segurança jurídica e negociações coletivas como instrumentos fundamentais para qualquer mudança estrutural.
Os impactos econômicos também merecem atenção. Alterações abruptas na jornada podem ampliar significativamente os custos operacionais, pressionando despesas com horas extras, novas contratações e encargos trabalhistas. O aumento dos custos de produção inevitavelmente repercute ao longo de toda a cadeia, chegando à indústria, à distribuição e, por fim, ao consumidor.
Em um momento em que o Brasil busca ampliar sua competitividade global e fortalecer sua posição como um dos principais fornecedores de alimentos do mundo, decisões que impactam diretamente a produtividade exigem cautela redobrada. O país precisa avançar em eficiência, inovação e segurança jurídica, criando um ambiente favorável para investimentos e geração de empregos.
Também preocupa a possibilidade de crescimento da informalidade. Quando uma legislação não consegue refletir adequadamente a realidade operacional dos diferentes setores produtivos, surgem distorções que podem gerar exatamente o efeito contrário ao pretendido, dificultando relações de trabalho equilibradas.
O Brasil precisa discutir o futuro das relações de trabalho. Essa discussão deve ocorrer de forma técnica, responsável e baseada em evidências. Melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores é um objetivo legítimo e compartilhado por toda a sociedade. O desafio está em construir soluções que conciliem proteção ao trabalhador, sustentabilidade econômica e viabilidade operacional dos setores produtivos.
No caso do agronegócio, isso significa reconhecer que a realidade do campo possui características próprias e que qualquer mudança precisa respeitar essa diversidade. O diálogo, a negociação e a construção coletiva continuam sendo os caminhos mais seguros para alcançar avanços consistentes e duradouros para trabalhadores, produtores, indústria e consumidores.
Por Clorialdo Roberto Levrero, presidente do Conselho Deliberativo da Abisolo.
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A entidade congrega fabricantes e importadores de fertilizantes minerais, organominerais e orgânicos, biofertilizantes, condicionadores de solo de base orgânica, substratos para plantas, insumos de base biológica e adjuvantes.
A Abisolo reúne mais de 140 empresas associadas e atua ativamente nas discussões de temas estratégicos do setor. A entidade mantém diálogo permanente com Ministérios e Secretarias, órgãos de controle e fiscalização, instituições de pesquisa e as Receitas Estadual e Federal, sempre com foco na competitividade, na liberdade econômica e na valorização dos segmentos que representa.
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